terça-feira, 12 de novembro de 2013

Dica de Filme: Como Estrelas na Terra



TAARE ZAMEEN PAR: COMO ESTRELAS NA TERRA

A Resenha fica por conta de Darlene Godoy de Oliveira, Psicóloga, Mestre e Doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento e professora dos cursos de Pós Graduação em Psicopedagogia na Universidade Mackenzie e no Centro Universitário UNIFIEO

O filme retrata a história de Ishaan Awasthi, um garoto indiano de 8 anos de idade que sofre diante das letras, livros e cadernos. Consequentemente, recorre com intensa frequência a seu mundo imaginativo repleto de pipas, peixes e desenhos. Suas dificuldades são percebidas pelos professores e pais como decorrentes de pouca dedicação e empenho e, diante da gravidade dos problemas e em parte como um castigo, os pais de Ishaan colocam-no num colégio interno. Lá, as dificuldades de aprendizagem agravam-se ainda mais e o garoto começa a desenvolver um quadro depressivo importante que é ignorado. 


O panorama da situação muda quando um jovem professor de Artes chega ao colégio e passa a se preocupar com Ishaan acompanhando-o de perto. Coincidentemente, este professor é disléxico e aos poucos percebe que os tipos de erros de leitura e escrita apresentados pelo garoto indicam que ele também pode ter o transtorno. Paralelamente a isso, o professor consegue incentivar o talento nato de Ishaan para desenhar e ao final do filme, ele é reconhecido por todos do colégio como um excelente artista.

Não pretendo discorrer sobre este filme segundo alguma teoria psicológica específica, mas refletir sobre o impacto que a existência da Dislexia pode atingir nas dimensões cognitiva, comportamental, familiar, escolar e macro social. Além disso, gostaria de assinalar brevemente as principais evidências neurobiológicas da Dislexia, que tem sido pesquisada há mais de um século em diversos países do mundo.

Ishaan, apesar de frequentar regularmente a escola e ser acompanhado pelos pais em casa, não é capaz de decodificar letras em sons com precisão, falha ao escrever espelhando letras e as percebe em movimento quando tenta ler. O último sintoma é relatado na literatura científica como stress visual e é presente em parte dos casos de Dislexia. Além disso, a leitura das crianças disléxicas tende a ser lenta e penosa devido a erros de inversões de letras e sílabas, confusões auditivas, confusões de letras por similaridade visual, omissões e acréscimos de letras, sílabas ou sons.

Por apresentar tais déficits cognitivos, Ishaan passa a perceber as tarefas acadêmicas como aversivas e desenvolve constantemente estratégias de fuga e esquiva das mesmas. Recorre ao mundo imaginativo, dispersa-se facilmente na escola e esconde dos pais o boletim escolar. Quando é colocado num colégio interno e percebe-se privado do contato familiar, torna-se apático e triste. Pesquisas4 apontam que crianças e adolescentes disléxicos tendem a apresentar maior susceptibilidade a desenvolver depressão e transtornos de comportamento. São muito comuns os comportamentos de fuga e esquiva diante das situações de aprendizagem formal, uma vez que nelas há constatação das limitações e o fracasso para a leitura.
A família de Ishaan, de início, não sabe como lidar com o problema. Por falta de informações sobre a existência da Dislexia, bem como pela ausência de acompanhamento e orientação escolar adequados, interpretam as dificuldades escolares apresentadas pelo garoto como decorrentes de preguiça e falta de interesse. Fazem uso de disciplina rígida com castigos físicos e ofensas. Enquanto a mãe tende a ser mais afetiva, o pai parece não perceber que Ishaan sofre com suas dificuldades e que seus comportamentos opositores refletem a necessidade de que haja um olhar mais compreensivo para sua situação. No nível macro social, nota-se uma grande preocupação principalmente por parte do pai em relação ao sucesso profissional na fase adulta. Este é um homem de negócios que valoriza a conquista pelo primeiro lugar, o mérito individual e a competitividade. Por outro lado, Ishaan apresenta grandes habilidades para desenhos e artes, sendo esta uma carreira pouco convencional para os padrões do pai. Portanto, numa sociedade que se propõe inclusiva, os valores e concepções de sucesso precisam ser repensados considerando as potencialidades e limitações que todas as pessoas apresentam.


O ambiente escolar no qual Ishaan está inserido é conservador e autoritário, tanto no primeiro como no segundo colégio. Em uma das cenas iniciais em sala de aula, a professora lhe solicita fazer leitura em voz alta. Ao simular o comportamento de ler emitindo sons não compreensíveis sem hipóteses de correspondência letra-som Ishaan torna-se alvo de chacota para os colegas e de ofensa para a professora, pois é desta maneira que ela interpreta sua atitude. Em nenhum momento do filme os professores e a equipe pedagógica questionam a eficácia de seus métodos de ensino e se estes são os mais adequados para Ishaan, uma vez que ele falha sistematicamente em ler e escrever. A tendência adotada foi a de culpabilizar o garoto por suas dificuldades. Atualmente, diversos países no mundo têm questionado e modificado seus métodos de ensino e de alfabetização considerando a existência da Dislexia. Com tais adaptações, diante do transtorno tais crianças não são mais culpabilizadas. Pelo contrário, o reconhecimento implica no auxílio pedagógico para a promoção da autonomia escolar.

Apontando agora para os principais achados científicos da Dislexia do Desenvolvimento, este é um transtorno de aprendizagem no qual o fator que mais chama a atenção é a discrepância entre a existência de boas condições ambientais e emocionais para aprendizagem, bom nível intelectual e ausência de déficits sensoriais ou neurológicos que, por sua vez, contrastam com rendimento de leitura pobre e lentificada, notado nos domínios de acurácia, fluência e compreensão. O caráter neurobiológico e constitucional da Dislexia é confirmado por achados recorrentes de estudos que apontam padrões de herdabilidade de Dislexia em famílias; padrões diferenciados de ativação cerebral observados com registro de neuroimagem, como hipoativação do lobo cerebral esquerdo em tarefas linguísticas; e, por fim, diferenças no processamento auditivo, visual e no padrão de movimentos oculares.

A fim de abarcar todas as dimensões da aprendizagem, o diagnóstico deve ser feito em contexto multidisciplinar por profissionais da saúde (fonoaudiólogo, psicólogo, psicopedagogo, oftalmologista, neurologista infantil). As características clínicas da Dislexia, os métodos de avaliação, bem como a construção e eficácia de programas interventivos cognitivos, educacionais e psicossociais para o tratamento do transtorno tem sido debatidas em países diversos e já estão inseridas nas políticas públicas em educação em forma de decretos e resoluções nos E.U.A., Reino Unido e Ilhas Canárias. No Brasil, tramita na Câmara dos Deputados o PL 7081/2010, que dispõe sobre o diagnóstico e o tratamento da Dislexia e do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade na educação básica, de autoria do Senador Gerson Camata - PMDB/ES.

Enquanto profissionais da Psicopedagogia, área de intersecção entre a saúde e a educação, temos o dever ético e profissional de auxiliar na promoção da aprendizagem através da condução de diagnóstico e tratamentos adequados das crianças, adolescentes e adultos disléxicos. Uma vez que a Dislexia é presente em países com sistemas linguísticos diversos e sua existência independe do nível sócio-econômico, devemos avançar nas discussões das políticas públicas que favoreçam a autonomia destas pessoas.


Assista ao filme completo aqui:

Link para download do filme:

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